Ambições do presidente ucraniano eram claras: ele exigiria nada menos que a adesão plena à aliança militar ocidental para a Ucrânia
CNN Brasil/Christian Edwards,

12/7/2023 REUTERS/Yves Herman
Na cúpula da Otan do ano passado em Madri, na Espanha, a aliança convidou formalmente a Suécia e a Finlândia a juntarem-se às suas fileiras. Na cúpula deste ano em Vilnius, na Lituânia, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, esperava que a aliança estendesse o mesmo favor a seu país.
Isso não era para ser assim. Em comunicado emitido na noite de segunda-feira (10), a Otan afirmou que “o futuro da Ucrânia está na Otan” – mas não disse quando esse futuro poderia começar.
Durante a invasão russa, os aliados ocidentais têm agonizado sobre se aprovam os pedidos de Kiev: primeiro artilharia, depois tanques Leopard, depois caças F-16, depois munições de fragmentação. A cada vez, o que parecia estar além dos limites a princípio acabou sendo visto por alguns membros como sensato e justo.
Mas a adesão à Otan é muito mais importante do que o equipamento militar, e pode levar algum tempo até que o desejo final de Kiev seja atendido. Então, o que exatamente Zelensky queria desta cúpula? Suas exigências eram realistas? E o que ele acabou recebendo?
O que Zelensky queria?
As ambições de Zelensky eram claras: ele exigiria nada menos que a adesão plena à Otan para a Ucrânia.
Na cúpula de julho de 2022, seus pedidos foram menos vociferantes. Zelensky só lançou sua candidatura à adesão rápida para ingressar na aliança em setembro, depois que o presidente russo, Vladimir Putin, anunciou que reconheceria quatro regiões ucranianas – Luhansk, Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia – como território russo.
Rapidamente após as reivindicações de Putin, Zelensky disse que a Ucrânia estava se candidatando à adesão à Otan “sob um procedimento acelerado”, o que significa que a cúpula de Vilnius é a primeira vez que o assunto está na agenda da aliança.
Sob a política de portas abertas da Otan, qualquer país europeu é livre para se candidatar, e é por isso que seus números aumentaram de 12 membros fundadores para os 31 que tem hoje – em breve serão 32 com a adesão da Suécia.
Zelensky apareceu diante de uma multidão de fãs na Praça Lukiskes, em Vilnius, na segunda-feira, em um palco decorado com o azul e o amarelo da bandeira da Ucrânia e uma enorme placa com os dizeres “#UcrâniaOtan33”.
A adesão plena era realista?
Mas enquanto #UcrâniaOtan33 pode ter conquistado aplausos na capital da Lituânia, a perspectiva tem sido mais assustadora para os líderes da própria aliança.
Sejamos claros sobre o que significa ser membro da Otan. O artigo 5º do Tratado consagra o princípio da defesa coletiva, o que significa que um ataque a um membro é um ataque a todos.
O Artigo 5º só foi invocado uma vez na história da Otan, após os ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos. Se a Ucrânia se juntasse hoje, com a invasão da Rússia em andamento, o Artigo seria invocado imediatamente, efetivamente arrastando 31 países para a guerra com a Rússia.
O presidente dos EUA, Joe Biden, deixou claro antes do início da cúpula de Vilnius que a adesão plena ainda não era realista. Falando a Fareed Zakaria, da CNN, em uma entrevista exclusiva no domingo (9), Biden disse que não há “unanimidade na Otan sobre se deve ou não trazer a Ucrânia para a família da Otan agora, neste momento, no meio de uma guerra”.
“Estamos determinados a comprometer cada centímetro do território que é território da Otan. É um compromisso que todos nós assumimos, não importa o quê. Se a guerra está acontecendo, então estamos todos em guerra. Estamos em guerra com a Rússia, se for esse o caso”, disse Biden.
O secretário de Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, ecoou a posição dos EUA, dizendo que “não podemos ter um novo membro no meio de um conflito. Isso apenas importaria a guerra para a aliança”.
No entanto, falando à CNN, Wallace disse que “sempre que esse conflito terminar, devemos estar preparados o mais rápido possível para trazer a Ucrânia para a Otan”.
Com o que Zelensky se contentaria?
Zelensky e seu ministro das Relações Exteriores, Dmytro Kuleba, de fato admitiram meses antes da cúpula da Otan que a Ucrânia não pode se tornar membro da aliança enquanto ela ainda estiver em guerra. Falando em uma coletiva de imprensa em Kiev em fevereiro, Zelensky disse que, embora a Ucrânia “não esteja procurando um substituto da Otan”, ele entendeu que “não seremos um membro da Otan enquanto a guerra estiver ocorrendo. Não porque não queremos [isso], mas porque é impossível”.
Indo para a cúpula, seus olhos estavam em um caminho claro para a aliança sem obstáculos uma vez que o conflito terminasse – e um cronograma claro de quando a Ucrânia seria oferecida como membro. Na terça-feira (11), Zelensky emitiu uma declaração pública contundente criticando a recusa “absurda” da Otan em fornecer um cronograma.
“Isso significa que uma janela de oportunidade está sendo deixada para negociar a adesão da Ucrânia à Otan nas negociações com a Rússia. E para a Rússia, isso significa motivação para continuar seu terror”, disse ele no Twitter.
Mas a recusa, ou incapacidade, da Otan em fornecer um cronograma é compreensível. Com efeito, a resposta à pergunta “Quando a Ucrânia se juntará à Otan?” é o mesmo que “Quando a Ucrânia vencerá a guerra?” A Otan deixou claro que o primeiro não pode acontecer antes do segundo.
“A tarefa mais urgente agora é garantir que a Ucrânia prevaleça, porque, a menos que a Ucrânia prevaleça, não há questão de adesão a ser discutida”, disse o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, em entrevista coletiva na noite de terça-feira.
O que Zelensky conseguiu?

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