Joe Biden em Tel Aviv - 18/10/2023 Reuters/Evelyn Hockstein

Análise: O que Biden conquistou e o que não conseguiu durante viagem a Israel

Havia clara expectativa para minimizar tensões na região, o que não foi alcançado

Stephen Collinson, da CNN

Joe Biden em Tel Aviv – 18/10/2023
Reuters/Evelyn Hockstein

O presidente dos Estados UnidosJoe Biden, voltou para casa depois de sete horas na zona de guerra israelense, com um Oriente Médio cada vez mais tenso e em situação pior de quando chegou.

Biden disse aos repórteres no Air Force One que estava satisfeito por ter feito o trabalho – notavelmente na questão do desbloqueio da ajuda humanitária em uma Faixa de Gaza cercada, que tem ficado sob pesado bombardeio israelense desde os horríveis ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro.

Mas a missão também mostrou os limites da influência dos EUA em uma região à beira de uma violência mais ampla, enquanto as narrativas conflitantes entre Israel e os estados árabes sobre uma explosão em um hospital na Faixa de Gaza, que se acredita ter matado centenas de pessoas, aprofundaram a crise.

O presidente cumpriu um objetivo fundamental da missão – expressar o profundo respeito por Israel, assumindo o trauma e a dor do país e fazendo analogias do Holocausto, ao prometer ficar sempre ao lado do povo judeu.

Mas também apelou aos líderes israelenses para não permitirem que a raiva causada pelos assassinatos dos “seus pais, dos avós, filhos, filhas, crianças e até bebês” manche a clareza sobre os objetivos na tentativa de destruir o Hamas.

O presidente traçou uma firme diferença entre o povo palestino e seus governantes radicais do Hamas, a quem acusou de usar civis como escudos humanos para armas e túneis, e lamentou as vidas “inocentes” perdidas em Gaza após dias de bombardeios israelenses.

Mas à medida que os protestos contra a explosão no hospital se espalhavam por toda a região, a terrível possibilidade da guerra de Israel com o Hamas se intensificar para além das fronteiras se tornou ainda maior quando Biden subiu no Air Force One para regressar aos na quarta-feira (18).

O presidente admitiu aos jornalistas que a missão de emergência tinha sido um risco, mas insistiu que foi um sucesso.

Mesmo assim, dado o enorme investimento político do prestígio norte-americano e da influência envolvida em uma súbita viagem presidencial, é justo dizer que a questão de saber o que exatamente a viagem de Biden proporcionou.

Explosão no hospital ofuscou viagem de Biden desde o início

Os objetivos mais amplos da viagem nunca tiveram uma chance depois de uma explosão na terça-feira em um hospital de Gaza que, segundo autoridades palestinas, matou centenas de pessoas e gerou protestos em vários países árabes. Foi exatamente o tipo de incidente que o presidente esperava evitar ao viajar para a região, mas a viagem de alto risco veio tarde demais.

Biden apoiou as alegações de Israel de que a explosão foi causada por um foguete da Jihad Islâmica disparado contra Israel – uma avaliação que ele disse ter sido apoiada pela inteligência dos EUA sobre o incidente.

Mas dúvidas sobre as origens da explosão pouco fizeram para acalmar a fúria que desencadeou em todo mundo árabe, onde há desconfiança nas declarações dos governos dos EUA ou de Israel, além de uma forte fúria sobre o tratamento a longo prazo dado aos palestinos.

A tragédia levou ao cancelamento de uma etapa crítica da visita de Biden a Amã, onde deveria se encontrar com o rei Abdullah II, da Jordânia, o presidente egípcio e o líder da Autoridade Palestina.

Em vez de receber uma comitiva presidencial, Amã foi abalada na quarta por uma segunda noite de enormes protestos que cristalizaram a raiva nas nações árabes devido ao ataque israelense a Gaza. Também eclodiram manifestações na Tunísia, Iraque, Irã, Cisjordânia e Líbano.

O Departamento de Estado dos EUA aconselhou os norte-americanos a não visitarem o Líbano, e a crescente agitação pública sobre a situação em Gaza pareceu endurecer as atitudes das principais potências regionais.

Por exemplo, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, apelou a “toda a humanidade para que tome medidas para acabar com essa brutalidade sem precedentes em Gaza”, em uma publicação no X (antigo Twitter), chamando a explosão no hospital de “o exemplo mais recente dos ataques de Israel desprovidos dos valores humanos mais básicos”.

A reunião em Amã seria vital para o esforço de Biden para equilibrar o apoio inequívoco a Israel – após a morte de mais de 1,4 mil civis pelo Hamas e o sequestro de mais de 200 reféns – com um esforço para envolver os líderes árabes que ele precisa para ajudar a conter o conflito.

O fato do Rei, o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi e o líder da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, se mostrarem dispostos a desprezar o presidente dos Estados Unidos – um aliado chave e doador – não diz muito sobre a influência de Washington neste momento ou sobre as esperanças que Washington pode salvar uma iniciativa de paz regional.

A possibilidade da agitação em todo o mundo árabe se espalhar e causar instabilidade deverá pesar nas decisões políticas dos principais líderes da região – mesmo daqueles que são aliados dos EUA.

Observação chocante de Biden sobre a “outra equipe”

Biden pode ter exagerado as suspeitas regionais sobre o papel dos EUA quando disse que a explosão do hospital parecia ter sido causada por “outra equipe”. Isso foi um lembrete de como Biden, muitas vezes, cria momentos vergonhosos que influenciam as afirmações republicanas de que, aos 80 anos, poderá ter dificuldades para cumprir o papel em um potencial segundo mandato.

A frase também pareceu irreverente, dado o horror indescritível que se desenrolou no hospital da Faixa de Gaza, que estava lotado mesmo antes da explosão por causa dos contínuos ataques aéreos de Israel enquanto perseguiam o Hamas.

E, mais importante, também corroeu a capacidade de Biden de realizar uma tarefa complexa, vital para aliviar as tensões na região, operando como uma terceira via entre Israel e os aliados árabes dos EUA.

Biden reiterou a afirmação de Israel de que o grupo militante Jihad Islâmica estava por trás do ataque, observando que estava elaborando avaliações baseadas em dados do Departamento de Defesa dos EUA. O Conselho de Segurança Nacional também disse acreditar que Israel “não foi responsável” pelo ataque. A Jihad Islâmica negou o envolvimento.

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