BRENO: ENTRE A TRADIÇÃO INTERNACIONAL E A POTÊNCIA DE NOVAS NARRATIVAS
DG: Assessoria/Por: Déborah Maria Barros Baptista Gonçalves

Paralelamente aos trabalhos profissionais, o ator tem investido em processos de formação que o colocam diante de novas linguagens e ampliam as ferramentas construídas ao longo dos anos. Mais do que uma etapa complementar à carreira, esse movimento traduz uma escolha consciente: permanecer em estado permanente de descoberta, refinando o olhar, expandindo repertórios e permitindo que a arte continue sendo território de experimentação.
Atualmente, Breno participa de uma residência artística conduzida por Javier Molina, ator, diretor e atual codiretor artístico do The Actors Studio, em Nova York — uma das instituições mais tradicionais e influentes na formação de atores no mundo. Inserido nesse ambiente de excelência artística, o ator encontra uma oportunidade singular de confrontar suas próprias referências com uma perspectiva internacional, em um processo que combina tradição, investigação e contemporaneidade.
O processo tem sido um espaço de investigação profunda sobre atuação, escuta, criação e construção de cena. Além disso, a residência possibilita que Breno se experimente em outros idiomas e se aproxime de referências do mercado internacional. A experiência amplia sua percepção sobre o ofício e acrescenta novas camadas à maneira como compreende personagens, narrativas e possibilidades de interpretação.
Há, nesse percurso, uma dimensão particularmente sofisticada: a capacidade de transitar entre diferentes universos sem perder a própria identidade artística. Ao experimentar outros idiomas, métodos e referências, Breno não apenas amplia suas ferramentas profissionais, mas também desafia os próprios limites criativos, transformando o processo de formação em matéria-prima para aquilo que ainda está por vir.
Simultaneamente, o ator integra a formação em Teatro Afrofuturista, realizada pela EPA – Escola Preta de Arte, iniciativa da Confraria do Impossível em parceria com o Terreiro Contemporâneo. A formação é conduzida por ALemos e Wayne Marinho e propõe uma imersão em linguagens e práticas cênicas afro-referenciadas.
Em uma época em que representatividade deixou de ser apenas uma pauta para se tornar também uma força estética, intelectual e narrativa, o Teatro Afrofuturista abre espaço para imaginar outras possibilidades de existência através da arte. É justamente nesse território que Breno mergulha, aproximando-se de conceitos que atravessam identidade, ancestralidade, memória, imaginação e a construção de futuros possíveis.
ALemos é diretor, dramaturgo e coordenador pedagógico da EPA. Ele fez história ao se tornar o primeiro artista negro a vencer o Prêmio Shell de Teatro do Rio de Janeiro na categoria Direção, com o espetáculo Esperança na Revolta. Wayne Marinho, ator e diretor com trajetória também no audiovisual, ocupa atualmente a direção geral da EPA.
A presença de nomes com trajetórias tão expressivas acrescenta densidade ao percurso de formação de Breno. Mais do que adquirir novas técnicas, trata-se de estabelecer diálogos com artistas que compreendem a cena como espaço de pensamento, provocação e transformação. O resultado é uma experiência que aproxima o intérprete de diferentes possibilidades de criação e amplia sua consciência sobre o lugar que ocupa — e que deseja ocupar — dentro da arte.
São dois processos distintos e, justamente por isso, complementares. Com Javier Molina, Breno investiga sua atuação em diálogo com uma tradição e uma perspectiva internacional. Na EPA, aprofunda questões relacionadas à identidade, ancestralidade, imaginação, dramaturgia negra e à construção de futuros possíveis através da arte.
Entre Nova York e as perspectivas afro-referenciadas da cena brasileira, Breno constrói uma ponte particular entre tradição e futuro. De um lado, o rigor de uma escola reconhecida mundialmente; de outro, a potência de narrativas que reivindicam memória, identidade e novos imaginários. É nesse encontro de mundos que sua formação ganha uma dimensão ainda mais contemporânea.
Essa escolha também revela uma compreensão menos imediatista da carreira. Em vez de simplesmente acumular experiências, Breno parece interessado em transformá-las em repertório. Cada residência, cada encontro e cada investigação passam a integrar uma construção maior: a de um artista capaz de se reinventar sem abandonar aquilo que o torna singular.
Para Breno, esse movimento é essencial para sua evolução: “À medida que sua carreira avança, ele compreende que crescer profissionalmente também exige crescer artisticamente. Mais do que acumular cursos ou técnicas, o objetivo é construir um processo consistente de formação, expandir o repertório, questionar o que já domina e descobrir novas possibilidades para o ator e o artista que está se tornando”.
A frase funciona quase como um manifesto. Em uma carreira construída entre experiências, desafios e descobertas, permanecer em movimento passa a ser uma escolha estética e profissional. Breno entende que a maturidade artística não está apenas naquilo que já aprendeu, mas sobretudo na coragem de continuar perguntando, investigando e se permitindo desconhecer.
É nesse espaço entre o domínio e a descoberta que nasce uma nova versão do artista. Mais preparado, mais consciente de suas referências e, ao mesmo tempo, mais aberto ao inesperado. Um ator que olha para o mercado internacional sem deixar de aprofundar suas raízes e que encontra, na formação, não apenas uma ferramenta para a carreira, mas uma maneira de ampliar a própria linguagem.
No fim, talvez seja justamente essa combinação — técnica e identidade, tradição e futuro, experiência e inquietação — que defina o próximo capítulo de Breno. Um capítulo em que atuar deixa de ser apenas interpretar histórias para se tornar também uma forma de investigar o mundo, reinventá-lo e, sobretudo, imaginar aquilo que ainda não foi contado.
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