(Foto: Bruno Sousa / Atlético)

O “lutar, lutar, lutar” dá lugar, 50 anos depois, ao “vencer, vencer, vencer”: O Galo volta a se sagrar campeão brasileiro

(Foto: Bruno Sousa / Atlético)
Quando penso nos 50 anos de hiato entre o primeiro e o segundo título do Atlético Mineiro no Brasileirão, penso no meu pai. O número cheio, meio século, dimensiona a distância, mas é um tanto quanto frio. Mesmo resgatar como era o Brasil em 1971 talvez escape do senso de realidade das gerações mais jovens. Porém, imaginar como o tempo se passou de um rapaz de 23 anos para o senhor de 73 me dá muito mais noção da longa espera. Meu pai mudou-se de estado, casou-se, construiu família, teve três filhos, virou avô, perdeu pais e irmãos, aposentou-se depois de uma vida inteira de trabalho pesado como operário. Vibrou com Reinaldo e Cerezo no Mineirão, encantou-se com Guilherme e Marques, virou testemunha dos milagres de São Victor e da magia de Ronaldinho. Ainda assim, mesmo depois de saborosos desafogos, a expectativa por um novo Brasileirão persistia. Até que viesse nesta quinta, com uma virada fantástica sobre o Bahia, daquelas que merecem a grandeza de um jogo de título. Uma noite para que a massa pudesse encher o peito para dizer que o Galo é bicampeão brasileiro, com toda raça de 50 anos pra vencer.

A caminhada do Atlético Mineiro durou emblemáticas cinco décadas, e alguns requintes de crueldade tornavam a areia do deserto mais quente sob os pés atleticanos nesta interminável peregrinação. O título de 1971, obviamente, constitui um orgulho. Por muito tempo o Galo foi considerado como o primeiro campeão nacional e, ainda que as contas tenham mudado mais recentemente, nada suplanta certos ares de pioneirismo ao redor do clube em meio a essa expansão da competição. Telê Santana foi eternizado, carregado nos braços do povo diante do feito. Dadá Maravilha, Vantuir, Vanderlei, Humberto Ramos e outras feras permanecem como lendas alvinegras. Porém, o mesmo gosto por afirmar tal ineditismo, com o passar do tempo, marcou as distâncias. Era doloroso dizer que parte da história foi inaugurada pelo Atlético, mas, paralelamente, novas gerações de torcedores não tinham presenciado a mesma alegria.

E não dá para dizer que o Atlético Mineiro não conquistou novamente o Brasileirão por “incompetência” ou qualquer outra diminuição do tipo. Esquadrões não faltaram, boas campanhas também não. Mas, num misto de indignação por decisões alheias e outros momentos em que a sorte parecia virar as costas, o novo título não veio. Qualquer lista dos melhores times da história do Campeonato Brasileiro precisa incluir o Galo da virada dos anos 1970 para os 1980. Foram dois vices e dois terceiros lugares, com esquadrões que incluem alguns dos jogadores mais talentosos daquele período. Reinaldo, Toninho Cerezo, Paulo Isidoro, Luisinho, Éder, João Leite e tantos outros possuem uma grandeza que não precisou exatamente do troféu para virar consenso – também por suas aparições na Seleção ou por um marcante hexacampeonato mineiro. Ainda assim, terem levado a Série A pelo menos uma vez seria uma justiça histórica.

Com o passar dos anos, na transição da década de 1980 para a de 1990, o Galo conviveu com outros times que por vezes fizeram campanhas fortes nas fases de classificação do Brasileiro e alimentaram as esperanças da torcida, mas não corresponderam necessariamente nos mata-matas. Foi o caso de 1986, 1987 e 1990, por exemplo. E se o aumento do número de competições na década de 1990 deu novas oportunidades para o Atlético celebrar também seus primeiros títulos continentais, campeão duas vezes na Copa Conmebol, nem mesmo a contratação de astros parecia solucionar o jejum no Campeonato Brasileiro. Novas campanhas expressivas vieram, mas não exatamente a sonhada taça, com a derrota na final de 1999 renovando traumas.

Cabe enfatizar, porém, que o trajeto feito pela torcida do Atlético nesses 50 anos não se concentrou apenas em decepções. E os bons momentos, é claro, não se restringem apenas ao redor dos títulos que também foram conquistados no período. A maior satisfação do Galo está mesmo em sua identidade. Em saber que, independentemente das glórias que acabaram tiradas e das lacunas, a paixão sempre guiaria o clube. Tal fé ajudou a formar o caráter atleticano. A grandeza do Clube Atlético Mineiro não se delimita necessariamente pelas taças ou pelos ídolos. Ela está nessa loucura coletiva que sempre conduz o time e que, mais cedo ou mais tarde, invariavelmente desembocaria nas mais apoteóticas comemorações. Na certeza de que toda a luta valeu a pena. “Lutar, lutar, lutar”, afinal, é parte fundamental do hino para os alvinegros.

Por: Redação
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