‘Desorganização alimentar tende a reativar inflamação, dor e inchaço’: médica esclarece relação entre alimentação e lipedema, doença que afeta atriz de ‘Três Graças’ e mais 9 milhões de mulheres

A alimentação tem papel importante no controle dos sintomas do lipedema, já que um cardápio inadequado pode, por exemplo, desencadear processos inflamatórios e retenção de líquidos no corpo.

Purepeople/Por: Matheus Queiroz Notícias dos famosos, TV e reality show

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O lipedema é caracterizado pelo acúmulo anormal de gordura em pernas, coxas, quadris e, em alguns casos, no braço, com distribuição simétrica nos dois lados do corpo. Dor e sensibilidade extrema nas áreas afetadas, edemas, facilidade para hematomas, resistência a dietas e, em casos mais avançados, redução da mobilidade são os principais sintomas.

Muitas vezes confundida com obesidade, a doença não tem origem totalmente compreendida. O que os médicos sabem, por enquanto, é que tem forte ligação com fatores genéticos. O tratamento pode ser feito com drenagem linfática, uso de meias de compressão e dietas anti-inflamatórias. Em casos mais graves, recomenda-se a chamada lipoaspiração tumescente.

Segundo informações reportadas pelo programa “Fantástico”, da TV Globo, o lipedema atinge entre 10% e 18% das mulheres no mundo. No Brasil, são pelo menos 9 milhões de pacientes. Nos últimos anos, diversas famosas têm falado abertamente sobre o diagnóstico e o tratamento, como Yasmin Brunet, Rafa Brites e Bárbara Reis, que, recentemente, anunciou que vai passar por uma operação por conta do desconforto nas pernas.

Para falar deste assunto e tirar diversas dúvidas, o Purepeople convidou Amanda Figueiredo, nutricionista clínica formada pela USP e pós-graduada em Saúde da Mulher e Reprodução Humana pela PUC. Confira a seguir!

Quando o assunto é lipedema, muito se fala em alimentos anti-inflamatórios. Pode dar alguns exemplos? Como eles atuam no tratamento da doença?

Uma dieta anti-inflamatória no tratamento do lipedema tem como objetivo modular a inflamação crônica, melhorar a microcirculação e reduzir sintomas como dor, inchaço e sensibilidade ao toque. Para isso, priorizamos alimentos naturais, ricos em antioxidantes, gorduras boas e compostos bioativos.

Peixes ricos em ômega-3, como salmão e sardinha, ajudam a reduzir mediadores inflamatórios. Frutas vermelhas e vegetais verde-escuros fornecem polifenóis e flavonoides, que combatem o estresse oxidativo. O azeite de oliva extra-virgem e as oleaginosas contribuem com gorduras anti-inflamatórias, enquanto especiarias como cúrcuma e gengibre atuam diretamente na modulação da inflamação e na melhora da dor.

Existem alimentos a serem evitados completamente?

Para controlar o lipedema e reduzir dores e inchaço, deve-se evitar alimentos inflamatórios como açúcares refinados, farinha branca, gorduras trans/saturadas, embutidos, ultraprocessados, álcool e excesso de sal.

O tratamento adequado e os resultados positivos podem resultar em uma dieta menos restritiva ou a vigilância com a alimentação precisa ser constante?

O tratamento do lipedema exige equilíbrio e constância. Com a melhora dos sintomas e a estabilização do quadro, a alimentação pode se tornar menos restritiva, mas, a atenção com a dieta precisa ser contínua. Isso porque o lipedema é uma condição crônica, e períodos prolongados de desorganização alimentar tendem a reativar inflamação, dor e inchaço. O foco não deve ser restrição permanente, e sim consistência em escolhas anti-inflamatórias na maior parte do tempo, permitindo flexibilidade pontual sem perder o controle do quadro.

Reduzir carboidratos ou adotar dieta low carb/cetogênica traz benefícios comprovados nesses casos?

Reduzir carboidratos processados pode trazer benefícios no lipedema, pois eles favorecem inflamação, retenção de líquidos e piora da dor. Açúcares, farinhas refinadas, doces e ultraprocessados tendem a intensificar os sintomas e devem ser controlados.

Já os carboidratos saudáveis, como batata, batata-doce, abóbora, mandioca, inhame, arroz integral e frutas, quando consumidos em quantidades adequadas e dentro de uma alimentação equilibrada, não são vilões. Pelo contrário, fornecem energia, fibras, vitaminas e ajudam na adesão ao tratamento a longo prazo.

O consumo de sal interfere nos inchaços de quem tem lipedema?

Sim, o consumo excessivo de sal piora o inchaço e a sensação de peso nas pernas e braços de quem tem lipedema. O sódio em excesso provoca retenção de líquidos, agravando a inflamação crônica e a dor já associadas a essa condição.

Quais grupos de alimentos são os mais recomendados na dieta de quem trata o lipedema?

A base do plano para quem tem lipedema deve incluir proteínas magras como ovos, aves e peixes, alimentos integrais e ricos em fibras, vegetais crucíferos como brócolis e couve, frutas vermelhas e gorduras boas, como azeite de oliva e abacate, além de temperos naturais como cúrcuma, gengibre e alho, que atuam no controle do processo inflamatório, da retenção de líquidos e da sensibilidade dolorosa, que são fatores centrais no manejo do lipedema.

Existe uma “dieta ideal” para quem tem lipedema ou o plano alimentar precisa ser individualizado?

Não existe uma “dieta única” ideal para todas as pessoas com lipedema, tornando o plano alimentar individualizado essencial. Embora dietas anti-inflamatórias sejam eficazes na redução de inflamação e dor, o plano deve respeitar a rotina, fase do tratamento e necessidades metabólicas de cada paciente.

É necessário recorrer à suplementação ou uma dieta pode ser suficiente no auxílio do tratamento do lipedema?

O ômega-3 se destaca por reduzir a inflamação, melhorar a microcirculação e ajudar no controle da dor. O magnésio, especialmente nas formas glicinato ou treonato, contribui para o relaxamento muscular, redução da dor crônica e melhora do sono.

A vitamina D atua na modulação inflamatória e imunológica, e antioxidantes como curcumina, chá-verde e quercetina auxiliam no controle da inflamação e do estresse oxidativo.
Mas é importante reforçar que a suplementação deve ser sempre personalizada, baseada em avaliação clínica e exames, e nunca substitui uma alimentação equilibrada, constância no tratamento e acompanhamento profissional.

Como evitar que pacientes desenvolvam relação disfuncional com a comida por conta do tratamento do lipedema?

O foco do tratamento precisa sair da lógica de restrição e culpa e ir para educação alimentar, equilíbrio e constância. A alimentação deve ser apresentada como uma ferramenta de cuidado e manejo dos sintomas, e não como punição ou controle de peso. 

Estratégias flexíveis, com espaço para escolhas, prazer e adaptação à rotina, reduzem a ansiedade e comportamento alimentar rígido. O acompanhamento multiprofissional, especialmente com nutricionista e apoio psicológico quando necessário, ajuda a ressignificar a comida, trabalhar a percepção corporal e evitar ciclos de restrição e compulsão.

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