Pacto de 30 anos prevê reatores AP1000 e projeto de dezenas de bilhões de dólares, mas Trump condiciona avanço à normalização com Israel
IG/Por: Nathália Fontes

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, encaminhou ao Congresso americano um acordo de cooperação com a Arábia Saudita para o desenvolvimento de energia nuclear civil. O pacto, fechado em julho, permite a participação de empresas americanas no programa nuclear saudita, mas Trump estabeleceu uma condição política de que Riad terá de normalizar as relações com Israel. As informações são da Reuters.
O documento foi enviado ao Congresso na segunda-feira (24) e terá um período de 90 dias de sessão legislativa para ser analisado. O acordo faz parte de uma negociação mais ampla entre Washington e Riad, que envolve energia, investimentos e a tentativa dos Estados Unidos de ampliar sua influência no Oriente Médio.
Acordo prevê reatores nucleares e bilhões de dólares
O pacto terá duração de 30 anos e prevê a construção de reatores nucleares do modelo AP1000, desenvolvido pela empresa americana Westinghouse.
O projeto é avaliado em dezenas de bilhões de dólares e pode representar um negócio de grande porte para a indústria nuclear dos Estados Unidos. A Westinghouse é controlada conjuntamente pela canadense Cameco e pela Brookfield Asset Management.
Na prática, o acordo abre caminho para que empresas americanas forneçam tecnologia e participem da construção da infraestrutura nuclear da Arábia Saudita.
A iniciativa também é estratégica para Washington porque amplia a presença de empresas americanas em um setor no qual a Arábia Saudita poderia buscar fornecedores de outros países, como Rússia e China.
O que o acordo permite
O pacto trata da utilização pacífica da energia nuclear, ou seja, de projetos voltados para a geração de eletricidade e outras aplicações civis.
A Arábia Saudita pretende desenvolver uma indústria nuclear própria como parte de sua estratégia para diversificar a matriz energética e reduzir a dependência do petróleo no consumo interno.
O acordo também prevê a participação americana no desenvolvimento do programa. Contudo, segundo a Reuters, o pacto não adota todas as salvaguardas que os Estados Unidos já exigiram de outros parceiros para restringir atividades como enriquecimento de urânio e reprocessamento de combustível nuclear.
Essa questão é uma das razões pelas quais o acordo provoca preocupação entre parlamentares e especialistas em não proliferação nuclear.
Por que Trump quer que a Arábia Saudita reconheça Israel?
Embora o acordo seja sobre energia nuclear, Trump vinculou sua implementação a uma questão diplomática, com a entrada da Arábia Saudita nos Acordos de Abraão.
A iniciativa foi mediada pelos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Trump e levou à normalização das relações entre Israel e Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão, entre 2020 e 2021.
Segundo uma autoridade do governo americano ouvida pela Reuters, a posição de Trump permanece a mesma: o acordo nuclear só seguirá adiante se a Arábia Saudita aderir aos Acordos de Abraão.
A exigência cria uma situação peculiar, visto que o Congresso americano agora analisa um acordo de energia nuclear enquanto o próprio presidente dos Estados Unidos condiciona sua entrada em vigor a uma decisão diplomática que envolve Israel.
Não está claro como o simples envio do acordo ao Congresso ajudará Trump a alcançar esse objetivo, já que a normalização das relações depende principalmente de uma decisão do governo saudita.
A Embaixada da Arábia Saudita em Washington não respondeu imediatamente a um pedido de comentário feito pela Reuters.
Guerra em Gaza mudou cenário entre sauditas e israelenses
A aproximação entre Arábia Saudita e Israel já vinha sendo discutida antes da guerra em Gaza.
Durante o governo do ex-presidente Joe Biden, os Estados Unidos também tentaram construir um acordo que combinasse uma parceria estratégica com a Arábia Saudita, um programa nuclear civil e a normalização das relações entre Riad e Israel.
Em 2023, diplomatas avaliavam que os sauditas poderiam estar próximos de estabelecer relações oficiais com Israel. No entanto, o cenário mudou após o início da guerra entre Israel e Hamas, em outubro daquele ano.
Desde então, a Arábia Saudita passou a defender uma condição para o reconhecimento de Israel: a existência de um caminho irreversível para a criação de um Estado palestino.
Essa posição coloca Riad em uma situação diferente daquela defendida pelo governo israelense. A questão palestina continua sendo um dos principais obstáculos para a normalização das relações entre sauditas e israelenses.
Congresso americano terá 90 dias para analisar
O acordo agora passa pelo processo previsto na legislação americana para tratados de cooperação nuclear.
O Congresso terá 90 dias de sessão para analisar o documento. Caso não haja uma objeção formal dentro desse período, o pacto poderá entrar em vigor, segundo a Reuters. Se houver uma rejeição, Trump ainda poderá vetar uma eventual decisão do Congresso, o que exigiria uma maioria de dois terços dos parlamentares para ser derrubado.
Entretanto, o processo ocorre em meio a questionamentos sobre as salvaguardas nucleares do acordo.
Risco de proliferação preocupa parlamentares
Uma das principais preocupações está relacionada à possibilidade de a Arábia Saudita desenvolver capacidade de enriquecimento de urânio.
O enriquecimento pode ter finalidade civil, como a produção de combustível para reatores, mas também é uma das etapas que podem ser utilizadas na produção de material para armas nucleares quando levada a níveis muito mais elevados.
Especialistas em não proliferação e parlamentares americanos criticam a ausência, no pacto, de algumas restrições consideradas mais rígidas.
Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, aceitaram em seu acordo nuclear com os Estados Unidos, de 2009, compromissos conhecidos como “gold standard”, que restringem o enriquecimento de urânio e o reprocessamento de combustível nuclear.
A administração Trump, por outro lado, afirma que o acordo com os sauditas contém as medidas de não proliferação exigidas pela legislação americana.
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