Peter Tuchman, operador de pregão, reage enquanto trabalha no pregão durante o sino de abertura da Bolsa de Nova York (TIMOTHY A. CLARY/AFP via/Getty Images) (TIMOTHY A. CLARY/AFP/Getty Images)

Por que a disparada do petróleo se tornou um dos grandes temores do mercado

Barril de petróleo subiu 20% em pouco mais de dois meses e vem sendo negociado próximo da máxima do ano; alta alimenta expectativa de juros mais altos nos EUA e Europa
EXAME/Por: Guilherme Guilherme
Peter Tuchman, operador de pregão, reage enquanto trabalha no pregão durante o sino de abertura da Bolsa de Nova York (TIMOTHY A. CLARY/AFP via/Getty Images) (TIMOTHY A. CLARY/AFP/Getty Images)
Uma eventual valorização do preço do petróleo seria um “convidado indesejado” para o mercado, disse uma das mais respeitadas gestoras brasileiras no início de agosto. Em julho, pouco antes da Verde alertar para o risco de alta, o petróleo saltou 14% — sua maior apreciação desde janeiro de 2022, pouco antes da guerra entre Rússia e Ucrânia eclodir, alterando toda a dinâmica desse mercado.
Só que as elevações de preços ainda não cessaram, com o preço do barril alcançando patamares cada vez mais altos. Nesta quarta-feira, 6, a commodity voltou a subir, superando pela primeira vez no ano a marca de US$ 91 por barril. O ganho acumulado desde o fim de junho é de 20%.
A última pernada foi motivada pela extensão dos cortes de produção na Arábia Saudita e Rússia, que, apesar dos embargos ocidentais, segue como uma das maiores fornecedoras de petróleo para a China. A Arábia Saudita anunciou que estenderá a redução sua produção em 1 milhão de barris de petróleo por dia até o fim do ano e a Rússia em 300 mil. A quantia equivale a cerca de 14 vezes a produção da PetroRio, a maior petrolífera privada do Brasil, e a 76% de toda a produção do pré-sal.
“Embora se esperasse em grande parte que estes cortes voluntários fossem prorrogados, as expectativas eram de uma prorrogação de um mês, em vez de três meses. Isto deixa o mercado com um déficit mais profundo do que o esperado durante o quarto trimestre de 2023, o que deverá continuar a apoiar os preços mais altos”, afirmou em relatório Warren Patterson, head de commodities do banco ING.
A questão é que mesmo com a economia global em desaceleração, a oferta não tem sido suficiente para atender a demanda. O desequilíbrio, portanto, tem reflexos nos preços mais elevados.
A alta do petróleo, que chegou a ser negociado acima de US$ 100 no ano passado, foi um dos principais gatilhos para a inflação global, que disparou no ano passado. Em meio à alta de preços de energia, o Índice de Preço ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) chegou a 10% na Zona do Euro. Nos Estados Unidos, o mesmo indicador bateu 9,1%, o maior patamar em 40 anos.
A recente alta do petróleo ocorre já com a gasolina em níveis relativamente altos nos Estados Unidos. De acordo com dados do AAA, o preço médio do galão de gasolina no país está a US$ 3.803, próximo do maior patamar sazonal desde 2012. O medo é de petróleo em alta eleve o preço da gasolina, provocando um novo repique da inflação.

Valorização do petróleo alimenta expectativa por juros mais altos

“O grande ponto é entender como a alta do petróleo pode influenciar na luta dos Bancos Centrais do Ocidente na luta contra a inflação. A inflação americana já se mostrava comportada, mas a alta do barril do petróleo devido à menor oferta acende a luz amarela”, comentou Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos.
A preocupação quanto aos efeitos da alta do petróleo na inflação tem se refletido parcialmente no mercado de títulos do Tesouro americano. Seus rendimentos, que incorporam parte das expectativas para os juros do Federal Reserve (Fed), têm subido. Desde junho, quando o petróleo engatou o movimento de alta, o rendimento do título do Tesouro com vencimento em 10 anos já subiu 17,8%. A perspectiva para os juros de curto prazo também tem sido alteradas.
“O receio é de que a alta do barril de petróleo, que na minha visão pode voltar a flertar com os US$ 100, leve os bancos centrais dos Estados Unidos e Europa a terem que aumentar mais os juros. Por isso, temos visto os juros futuros subindo no exterior. Essa valorização do petróleo certamente será pauta nas reuniões de política monetária. Essa narrativa pode ganhar força nos próximos dias”, disse Max Bohm, estrategista de ações da Nomos Investimentos.
A probabilidade implícita de o Federal Reserve (Fed) voltar a subir juros até o fim do ano quase que dobrou, passando de 25% para 45%, segundo monitor do CME Group. A grande expectativa é de que a alta seja feita em novembro, com a taxa subindo 0,25 ponto percentual para entre 5,5% e 5,75%. Se confirmada, a alta levaria o juro a renovar o maior patamar desde 2001.
Ainda é cedo para afirmar que a alta do petróleo levará a políticas monetárias ainda mais duras nas economias desenvolvidas. Mas esse “convidado indesejado” tem se aproximado e está cada vez mais próximo de bater à porta. O grande risco, para o mercado, é ele se sentar à mesa dos bancos centrais e, consequentemente, às de operações.

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